Entrevista: André Cariús – Donsoft Entertainment

A reportagem de capa da revista Indie Gamer tinha o manjado título de “O Brasil dos Games”. O objetivo era entrevistar responsáveis por desenvolvedoras nacionais, discutir seus projetos e saber o que eles pensam sobre o mercado daqui. Acho que consegui o que queria. Se não, cheguei perto. Foram três entrevistas: Renato Pelizzari, da Tendi; José Lúcio, presidente da Icon Games; e André Cariús, presidente da Donsoft. Esta última, coloco logo menos abaixo.

A Donsoft Entertainment é uma empresa especializada em jogos que tem como foco a cultura e o folclore brasileiros. André Cariús fundou a empresa em 2001, no Rio de Janeiro, e desde 2003  investe no tema capoeira. Desenvolve o jogo Capoeira Legends: Path of Freedom, que é divido em três capítulos – o primeiro já lançado no início do ano.

First Stage: Quais as maiores dificuldades de se desenvolver jogos de forma independente no Brasil?

André Cariús: Sem dúvidas o principal problema é a falta de capital. Porém, outra questão que podemos citar é conseguir uma equipe envolvida e pessoas que deem continuidade ao projeto, mantendo a motivação e dedicação ao longo de projetos longos. Nos 8 anos de existência formal da Donsoft, fundada em 2001, e dos quase 16 anos de organização de grupos que tento reunir desde 1993 para a criação da empresa… Essa sem dúvida foi a principal dificuldade.

Outro ponto importante é a competência técnica. Programadores e Designers precisam ser os melhores em suas respectivas competências para atuarem neste mercado. O nível de conhecimento técnico-científico demandado é, em todas as áreas envolvidas no processo, altíssimo. Por último, é bom citar que todo brasileiro que joga se sente tão “Game Designer” quanto todo torcedor que gosta de futebol se sente técnico de futebol.

Chega a ser engraçado ler comentários de pessoas que não têm a mínima ideia de como avaliar um produto em termos de produção fazendo essa avaliação. No fundo todos acham que vamos, com uma empresa independente, fazer um jogo exatamente rico em todos os sentidos que os projetos de centenas de milhões de dólares produzidos fora do país.

Em geral, as pessoas não avaliam somente como jogadores, avaliação essa sim que vem nos ensinando e ajudando muito – inclusive, que nos fez fazer drásticas alterações no jogo: A versão 1.1 de Capoeira Legends, lançada neste mês, tem um sistema melhor de animações, melhoras no sistema de movimentação e melhora significativa na inteligência artificial dos oponentes – tudo resultado de comentários e críticas construtivas dos jogadores. Estamos e estaremos sempre buscando tornar o nosso produto, mesmo depois de estar no mercado, o melhor possível. Para isso existem os Patchs…

O mercado consumidor do seguimento cresce no mundo todo. O Brasil segue essa linha?

AC: Sim, o número de jogadores de todas as idades e classes sociais é cada dia maior. O Brasil segue esta linha, mas infelizmente com altíssimos índices de pirataria. Culpa dos impostos, das taxas de importação, mas também da cultura de software pirata muito forte em nosso país.

E quanto à produção nacional: vocês acham que há um aumento de jogos circulando?

AC: Sim. Existe uma energia forte de empresas buscado seu espaço no mercado em distintos segmentos: celulares, jogos massivos para PC, jogos para consoles, jogos single player para PC; entre outros. Essa energia é muito positiva e acredito estarmos vivendo o melhor momento do mercado nacional até hoje. Porém, muitas empresas passam por grandes dificuldades. O que vem levando o mercado nacional é, em especial, nossa garra e determinação (tanto das empresas quanto dos profissionais que buscam espaço neste mercado).

Hoje o lucro obtido nas vendas compensa os gastos do desenvolvimento?

AC: Na Donsoft infelizmente ainda não. A empresa tem conquistado novos espaços, prêmios e resultados também financeiros. Mas ainda estamos em busca do “break-even” em especial por termos investido muito em nosso principal projeto, que demandou muita pesquisa histórica e cultural. Estamos trabalhamos muito acreditando que chegaremos em breve a um momento de maior sustentabilidade econômica. Porém, há um grande número de empresas, especialmente as focadas em prestação de serviços para os mercados nacional e internacional, que são sustentáveis e têm algum grau de escalabilidade econômica. Essa é uma informação muito positiva!

O que precisa melhorar no país para que seja realmente viável desenvolver jogos por aqui? Quanto falta para o cenário ideal?

AC: Em especial apoio governamental para projetos de maior porte. Até existe algum apoio (FINEP, MINC, FAPERJ), mas as competências responsáveis por eleger os projetos têm pouca proximidade com o mercado de jogos de fato, o que dificulta a escolha das empresas que receberão apoio. Acreditamos e esperamos que essa aproximação ocorra.

O Brasil não precisa de um grande jogo, de dois grandes jogos. Precisamos nos mostrar como um mercado emergente de produção de jogos de grande qualidade (pequenos, médios e grandes). Só assim teremos uma fatia efetiva deste enorme mercado mundial – do qual o Brasil tem uma quantia muito pequena de participação efetiva.

A qualidade dos jogos nacionais é compatível com o produto que vem de fora?

AC: Sim, em termos de criatividade, sim, em termos de competência técnica. Mas em termos de volume crítico-qualitativo é difícil nos compararmos. Os projetos de ponta internacionais são desenvolvidos por times experientes e competentes de centenas de pessoas com orçamentos altíssimos. Já faz parte da cultura deles fazer jogos… da nossa de certa forma só faz parte “jogar” – o que é um grande passo.

No Brasil, salvas raras exceções, os times são pequenos e há pouca infraestrutura para produzir. Por mais que tenhamos jogos desenvolvidos no Brasil desde 1982 (pelo que sei), ainda não temos volume de produtos no mercado. Consequentemente, acredito ainda termos alguns caminhos até termos o nosso espaço de fato no mercado internacional.

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Um pensamento sobre “Entrevista: André Cariús – Donsoft Entertainment

  1. […] This post was mentioned on Twitter by First Stage, Cesar Martins. Cesar Martins said: RT @firststageblog: Entrevista: André Cariús – Donsoft Entertainment: http://wp.me/p86Vw-qS […]

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